sábado, 28 de abril de 2012

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É triste dizer isso, mas os espaços aumentaram... A saudade tá tomando conta deles.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Agora sou melhor.

"Ele mora em mim. E dorme. De vez em quando desperta, como um pedaço de memória caído no chão, mas logo volta a dormir. Confesso que, por alguns instantes, quase sem querer, vejo um pedaço do seu rosto ou do seu corpo. E me lembro do quanto é bonito. Ele mora em mim e às vezes fala com a minha voz, sonha com meus sonhos, ri com o meu riso, se move com minhas pernas, abraça com meus braços. Ele mora em mim e ama com o meu coração. (...) Ele mora em mim e me faz mais forte. Nunca, em toda a minha vida, tive tanta coragem. Nunca fiz tanto ao mesmo tempo. (...) Acho que me tornou mais alerta também. É bem-vinda a sua inteligente desconfiança. E eu, que era doce, ganhei tempero para ser melhor." (C.G)

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Pra eu não correr o risco de esquecer um dia.

- eu era a neta mais velha e mais paparicada de vovô.

- vovô ficava super se achando quando eu o defendia das discussões com vovó. "Tá vendo, Conceição, minha neta dá razão a mim, a mim", ele dizia todo orgulhoso.

- ele me dava pastilha halls toda semana. Curiosamente, na semana anterior a sua morte, ele me deu um saco com umas cinco. Ainda tenho a ultima e nao consigo abrir.

- vovô dormia cedo, mas assim que eu começei a dirigir, ele ficava acordado até tarde, para que eu ligasse quando chegasse da universidade.

- morei um tempo com vovó e vovô e muitos pensavam que eu era a filha mais nova deles.

- em um dos meus regimes doidos, peguei vovô conversando escondido com a secretaria lá de casa pedindo, pelo amor de Deus, para nao deixar eu sair sem comer. "Forçe, minha filha, forçe que ela acaba comendo".

- vovô adorava Roberto Carlos. Todo domingo de manhã a gente acordava com o som nas alturas. Ainda bem que o senhor foi pr'aquele show, vô.

- meus avós viajavam todo ano pra Foz do Iguaçu e São Paulo. Todo mundo ria, dizendo que eles deveriam ir para outros lugares, mas nao tinha jeito. No ano que vovô faleceu, eu e meu namorado fomos com eles.

- vovó prefere Foz. Vovô preferia São Paulo.

- de todas as viagens, ele trazia alguma coisa pra mim, nem que fosse uma lapiseira.

- vovô me apresentava com maior orgulho pra todos os amigos deles. Dos amigos de infância ao vendedor de galinha.

- vovô sempre me acordava mais cedo do que deveria, eu reclamava disso. "tá bom, tá bom, daqui a 10 min lhe chamo de novo". Não dava 5min, ele vinha com um copo de suco de laranja me acordar.

- "Deus te abençoe, minha filha. Deus te abençoe" - ele dizia várias vezes por dia, como uma força e fé enorme.

- eu ia na missa com ele e vovó quase toda semana. as vezes, ele me buscava. Outras, eu ia de carro e encontrava eles lá. Na ultima semana de vovô, eu fui mas eles nao estavam lá.

- vovô tinha raiva dos parabens no final da missa. quando tinha algum aniversariante, a gente já se olhava e eu morria de rir.

- vovô sempre mandava a gente lavar as mãos. SEMPRE.

- vovô tinha parado de beber há uns 8 anos. Quando bebia, ele saia escondido e eu ia junto porque ele me subordava com bombom, jujuba e tudo o que eu pedisse.

- uma vez, de proposito, eu derrubei a cerveja de vovô. Ele ficou revoltado.

- vovô morria de rir com os netos menores. Especialmente, Bia, Vitoria e Pedrinho.

- a comida preferida de vovô era bode.

- vovô contava todo orgulho as historias de quando ele era pequeno no sertão.

- vovô noivou com duas mulheres ao mesmo tempo: vovó e outra. E pior, ele pediu dinheiro emprestado a vovó pra comprar a aliança da outra. Vovó botou a outra pra correr. Vovô morria de rir com essa historia.

- vovô era diabético, mas nao tava nem ai. ele comprava bolo lá pra casa, mas acaba comendo mais da metade, de uma vez só.

- vovô ia comprar pão na padaria e fazia uma refeição, praticamente, provando as novidades. vovó nem ia, porque morria de vergonha. vovô achava graça.

- quando meus avós iam almoçar lá em casa, vovô, como sempre, se esbaldava de tanto comer. vovó brigava dizendo que a glicose dele ia aumentar. "pára de me beliscar, Conceição." "olhe, ana (minha mae), ela tá me chutando aqui embaixo".

- vovô caminhava todo dia, com chuva, com sol, não importava.

- vovô adorava meu namorado e faleceu no dia do aniversário dele. Na manhã, ele ligou dando os parabéns e disse: "que você cuide bem da minha neta por muitos e muitos anos." Ramon me contou dias depois.

- vovô não tava doente. seu coração simplesmente parou.

- vovô tinha ido no cardiologista meses antes. Ele disse que vovô estava com o coração de atleta.

- ele adorava quando vovó sentia ciúmes dele.

- vovô adorava o sabonete Senador. Ainda sinto o cheiro dele.

- vovô sempre se cortava quando fazia a barba. Eu ficava danada com ele.

- vovô sentia PAVOR ao encontrar qualquer fio de cabelo, por mais minusculo que fosse, perto do prato dele. ele nao comia mais, de jeito nenhum.

- vovô era viciado no jogo do bicho. ele parava o transito para olhar a tabela. Eu ouvia as buzinas furiosas dos carros atras e me abaixava no banco de trás.

- vovô era muito engraçado. E ator, também. Inventava cada uma...

- vovô ficava indignado com o preço das comidas no aeroporto.

- vovô ficou absurdamente feliz e orgulhoso quando eu passei no vestibular. ficou feliz, feliz mesmo.

- vovô era brigão quando queria. E muito teimoso também.

- as vezes, é verdade, ele implicava com vovó. eu nao falava na frente dela, mas depois eu ligava pra ele pra dizer.

- vovô queria comer 98x no dia.

- eu fui 4x pra Foz e São Paulo com eles. em uma das vezes, quando tio Fábio também foi conosco, vovô se recusou a pagar um prato de sopa de R$ 22,00. Tio Fábio pagou.

- nas viagens, pra onde ele ia levava uma bolsa nas costas... com comida. No aeroporto, esperando o avião para voltar, vovô abriu a bolsa e tirou uma banana. "Quer uma, Conceição?" vovó ficou danada e morrendo de vergonha.

- vovô cochilava assistindo televisão. E depois, se a gente perguntasse, ele inventava uma historia na maior cara de pau, só para nao admitir que estava dormindo.

- vovô aperriava muito vovó. Aperriava mesmo.

- vovô adorava passear no supermercado. Ia todo dia.

- vovô dirigia super mal. A gente dizia que ele ia ser multado por dirigir devagar demais. E, incrivelmente, vovô foi multado por passar no sinal vermelho. Foi a maior gozação do mundo na família. Depois disso, quando o sinal estava perto de fechar (mas ainda aberto, no verde), vovô parava e os carros atras buzinavam freneticamente.

- "vai vovô, corre pra pegar o sinal" - "não dá, minha filha, o sinal é muito alto." É, ele era engraçado.

- vovô conhecia minhas amigas, mas trocava o nome de todas, menos de Alene.

- não tinha como uma amiga minha entrar no carro de vovô pra nao rir. Larissa, que estuda comigo na universidade, ria de chorar com as coisas dele.

- uma vez, alene foi almoçar comigo lá na casa dele. ele encheu o prato dela de arroz. Muito MESMO.

- vovô tinha um carro só dele, mas as vezes, saia de onibus, só para apresentar a carteira de maior de 65 anos e nao pagar a passagem.

- vovô dizia que quando minha mãe e minha avó saiam, o chão do shopping tremia, com tanto consumismo junto.

- vovô detestava ir ao shopping. Mal ia. Ele era revoltado com o preço do estacionamento.

- quando, uma vez, vovô foi ao shopping, ele perguntou ao segurança: "Moço, aqui vende salsicha?"

- vovô era viciado em tentar consertar óculos.

- vovô diminuia o jato da água quando eu e vovó iamos tomar banho. ele dizia que a gente, em um banho, gastava água suficiente para tomar banho a semana inteira.

- vovô não perdia o jornal da noite de jeito nenhum.

- vovô não gostava de dirigir nem de sair de noite.

- vovô brigava quase toda semana com o gerente do bompreço porque no panfleto tinha um preço e quando passava no caixa, estava outro. Às vezes, era coisa de centavos, mas ele brigava mesmo assim. E o gerente ja conhecia ele pelo nome.

- o padeiro do bompreço chorou quando soube que vovô tinha morrido.

- vovô me deixava quase sempre na escola. Um ano, quando ele viajou, contratou um taxi pra me deixar/buscar todo dia. Minha mae considerou uma afronta, mas ele disse que ia ficar mais tranquilo porque sabia o quanto ela atrasava e nao queria que eu ficasse esperando muito. O nome do taxista é Seu Formiguinha. É um senhor já. Ele também chorou quando soube da morte de vovô.

- quando vovô achava errado alguma coisa que eu fazia, ele pedia pra vovó falar comigo. Só pra eu nao ficar chateada com ele. bobinho, meu Deus.

- em todo aniversario de vovó, ele lhe dava um botão de rosa. Nesse ultimo (em dezembro), eu que dei.

- vovó tá sofrendo muito. ela tenta esconder, mas todo mundo vê.

- vovó agora é nossa menina dos olhos.

- meus avós discutiam muito por besteira. Mas, apesar de tudo, vovô tinha muito cuidado nela.

- eu via e falava com vovô todo dia. Inexplicavelmente, no dia que ele morreu, não vi nem falei com ele. Isso me entristesse demais. Eu poderia tê-lo aproveitado por mais um dia.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Sua gaveta. Sua.

A gaveta de vovô ainda está com as coisas dele. Não as roupas, claro. Mas a gaveta com livros, cartas e afins. Hoje, não sei porquê, resolvi abrir. Achei uma carta da minha mãe pra ele, ela devia ter uns 10/12 anos e dizia o quanto o amava e que seria a pessoa mais feliz do mundo se ele parasse de beber. Nós vimos isso. Meu avô estava sem beber há uns 10 anos. E nós fomos, vô, as pessoas mais felizes do mundo por isso.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Aqui, bem perto.

"Só não me iludo
quando digo que em mim
você é eterno e completo
em mim você vive saudável
e as aparências
e as circunstâncias
tantas vezes tão constrangedoras
para você
para nós
elas não valem."

Trechos de um poema feito por Stella (blogdomeupai.blogspot.com)

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

O maior dos espaços

Até o ano passado (2011), o dia 12 de julho costumava, desde 2008, ser o meu dia preferido do ano. Dia do aniversário do meu namorado e dia do nosso aniversário de namoro. Ainda lembro da intensidade que era aquele dia, do frio na barriga que eu sentia na noite anterior, da preparação especial, da ansiedade em chegar logo. Foi assim no ano passado. Lembro como se fosse hoje. Às 0h00 enviei uma mensagem linda que tinha preparado horas antes, quando já estava deitada.

Acordei, fui trabalhar e combinamos de almoçar juntos. Antes de encontrá-lo, parei numa doceria e comprei um bolinho daqueles bem pequenos, do seu sabor predileto: chocolate com chocolate e pronto. Nada mais. Chovia muito e lembro de ter me molhado toda ao entrar no restaurante. Mas almoçamos e foi muito especial, como sempre. Conversamos muito, sobre os nossos trabalhos, sobre nós. Sobre como era bom estarmos juntos em mais um 12 de julho.

Voltei para casa. Íamos jantar logo mais a noite e eu ainda nao sabia onde. Seria surpresa, ele me disse. Costumávamos fazer assim: almoçávamos juntos para comemorar o aniversario dele e jantávamos para comemorar o NOSSO aniversário. A chuva não parava, ao contrário, ficava cada vez mais forte. Mas eu já estava em casa, conversando com minha mãe, brincando com minha irma mais nova (eu tinha lhe presenteado com uma bola de sopro que ganhamos no restaurante).

Era mais ou menos 17hrs quando o telefone tocou. Era a minha avó, desesperada, dizendo que vovô estava passando mal. Minha mãe tentou acalmá-la, perguntando o que ele estava sentindo, mas como ela estava muito nervosa, saimos correndo, literalmente. Nesse momento, não lembramos de sandália, roupas adequadas, sinais de transito, lombadas de velocidade, nada. Absolutamente nada. A pressa de chegar e ver o que estava acontecendo nos fez ficar inertes a todas as outras coisas. Um erro, é verdade. Mas quanto a isso, correu tudo bem.

Ao chegarmos, minha avó estava desesperada, dizendo que vovô tinha ido embora, que não estava mais entre nós. O desespero era tanto que ela nao conseguia abrir os cadeados do portão, o que fez minha mãe, com minha ajuda, pular o muro da casa. Mas já era tarde demais. Coração não espera, ele simplesmente pára, como um stop na música.

O que senti nesse momento palavras não descrevem. Foi dor, muita dor, muuita dor. Um pouco de raiva, também. E saudade, saudade antecipada de abraçar, beijar, conversar, ligar para avisar que cheguei da faculdade, ser acordada por ele com um copo de suco de laranja na mão. Sim, ele fazia isso, o meu vozinho.

"Eu me lembro de insistir em não acreditar no que os meus olhos gritavam para eu ver" (C.G). Estava ali, na minha frente, mas eu realmente acreditava que ele ia levantar daquela cama, dizer que tudo não passou de uma brincadeira sem graça, que estava tudo bem.

A morte nos pegou de surpresa. Não é facil aceitar que uma pessoa saudável, cheia de vida, com todos os exames em dia, se vá dessa forma, como uma chuva de verão. Não é fácil aceitar que uma pessoa tão presente, como vovô era, se torne ausente assim, de uma hora para outra.

O que me conforta é saber que ele foi feliz. Saber que seus ultimos momentos foram ao lado da mulher que ama, em sua casa, em paz. Ele foi feliz e está feliz. Prefiro pensar assim.

Não sei mais o que esperar do dia 12 de julho. Não sei como será essa data nesse ano, nem nos próximos. Mas aprendi a não esperar tanto de uma data. Deus, às vezes, nos ensina de forma dura, simplesmente por saber que nao aprenderíamos de outro modo.

"Sabe essa aqui? Essa é o amor da minha vida."
- ele dizia sobre mim aos quatro cantos do mundo.
Ainda bem que ele sabia o quanto eu o amava, também. O quanto eu o amo.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Feliz aniversário, vô

"Porque eu não sabia o quanto doía, embora soubesse da dor.(...) Porque eu não passo 24 horas sem pensar em você. Porque você me levou para viajar pra tudo quanto foi lado, e viajar com você era andar com o melhor guia turístico do mundo. (...) Porque você tinha a gargalhada mais gostosa e mais rara, e o que eu mais desejava na vida era fazer você rir. Porque hoje é seu aniversário e você não está aqui. Mas eu estou. Então, você está aqui, em mim."

Trechos do blog: 'dropsdafal.blogspot.com'.

Hoje é o primeiro aniversário seu que passamos sem você. Doeu tanto.