terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Ele canta e você renasce


Nunca pensei que sentiria tanto prazer em ouvir Roberto Carlos. Talvez seja porque fico esperando você vir da cozinha beliscando algo, sentar ao meu lado para vê-lo na televisão, elogiando todas as músicas e reclamando do barulho. Tudo vem tão à tona que chego realmente a acreditar que você está por aqui.
Cada música diz tanto de você. Posso ouvir sua voz cantando alto cada uma delas insistindo pra mim que ele é o melhor cantor de todos.

Sinto você não ter conhecido essa música nova. Tenho certeza que você cantaria pra vovó, rindo e se achando o máximo: Esse cara sou eu. E era. O melhor avô, melhor pai, melhor marido e melhor homem que conheci em toda a minha vida.

E tenho que confessar: Ouvir Roberto Carlos tem sido incrível. Você tinha razão.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Era para ser nós

Hoje eu tava estudando na biblioteca da universidade e, entre uma desatenção e outra, observei um rapaz que estudava na mesa da frente quando seu avô (ou pai, talvez) chegou para lhe buscar. Entendi quando ele pediu para que o senhor esperasse um pouco enquanto terminava de fazer algo. Este, então, sentou, tirou os óculos do rosto, um guardanapo amassado de dentro do bolso e se pôs a limpar seus óculos, EXATAMENTE como vovô fazia. E, ainda, estava vestindo uma bermuda jeans bege com uma blusa surrada branca lisa e tênis, como vovô gostava de ir caminhar todos os dias. Na mesma hora, imaginei cada detalhe dele, ele indo me pegar na escola, limpando os óculos, rindo com aquela risada frouxa. Confesso que cheguei a vê-lo na minha frente. Tão perto e tão longe. Era para ser nós dois ali. Não pude evitar, a saudade tomou conta de mim. Meu Deus, como isso dói... Como eu queria vê-lo limpar os óculos de novo...

sábado, 28 de abril de 2012

segunda-feira, 5 de março de 2012

Agora sou melhor.

"Ele mora em mim. E dorme. De vez em quando desperta, como um pedaço de memória caído no chão, mas logo volta a dormir. Confesso que, por alguns instantes, quase sem querer, vejo um pedaço do seu rosto ou do seu corpo. E me lembro do quanto é bonito. Ele mora em mim e às vezes fala com a minha voz, sonha com meus sonhos, ri com o meu riso, se move com minhas pernas, abraça com meus braços. Ele mora em mim e ama com o meu coração. (...) Ele mora em mim e me faz mais forte. Nunca, em toda a minha vida, tive tanta coragem. Nunca fiz tanto ao mesmo tempo. (...) Acho que me tornou mais alerta também. É bem-vinda a sua inteligente desconfiança. E eu, que era doce, ganhei tempero para ser melhor." (C.G)

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Pra eu não correr o risco de esquecer um dia.

- eu era a neta mais velha e mais paparicada de vovô.

- vovô ficava super se achando quando eu o defendia das discussões com vovó. "Tá vendo, Conceição, minha neta dá razão a mim, a mim", ele dizia todo orgulhoso.

- ele me dava pastilha toda semana. Curiosamente, na semana anterior a sua morte, ele me deu um saco com umas quatro. Ainda tenho a ultima e não consigo abrir.

- vovô dormia cedo, mas assim que eu começei a dirigir, ele ficava acordado até tarde, para que eu ligasse quando chegasse da universidade.

- morei um tempo com vovó e vovô e muitos pensavam que eu era a filha mais nova deles.

- em um dos meus regimes doidos, peguei vovô conversando escondido com a secretaria lá de casa pedindo, pelo amor de Deus, para nao deixar eu sair sem comer. "Forçe, minha filha, forçe que ela acaba comendo".

- vovô adorava Roberto Carlos. Todo domingo de manhã a gente acordava com o som nas alturas. Ainda bem que o senhor foi pr'aquele show, vô.

- meus avós viajavam todo ano pra Foz do Iguaçu e São Paulo. Todo mundo ria, dizendo que eles deveriam ir para outros lugares, mas nao tinha jeito. No ano que vovô faleceu, eu fui com eles.

- vovó prefere Foz. Vovô preferia São Paulo.

- de todas as viagens, ele trazia alguma coisa pra mim, nem que fosse uma lapiseira.

- vovô me apresentava com maior orgulho pra todos os amigos deles. Dos amigos de infância ao vendedor de galinha.

- vovô sempre me acordava mais cedo do que deveria, eu reclamava disso. "tá bom, tá bom, daqui a 10 min lhe chamo de novo". Não dava 5min, ele vinha com um copo de suco de laranja me acordar.

- "Deus te abençoe, minha filha. Deus te abençoe" - ele dizia várias vezes por dia, como uma força e fé enorme.

- eu ia na missa com ele e vovó quase toda semana. as vezes, ele me buscava. Outras, eu ia de carro e encontrava eles lá. Na ultima semana de vovô, eu fui mas eles nao estavam lá.

- vovô tinha raiva dos parabens no final da missa. quando tinha algum aniversariante, a gente já se olhava e eu morria de rir.

- vovô sempre mandava a gente lavar as mãos. SEMPRE.

- vovô tinha parado de beber há uns 8 anos. Quando bebia, ele saia escondido e eu ia junto porque ele me subordava com bombom, jujuba e tudo o que eu pedisse.

- uma vez, de proposito, eu derrubei a cerveja de vovô. Ele ficou revoltado.

- vovô morria de rir com os netos menores. Especialmente, Bia, Vitoria e Pedrinho.

- a comida preferida de vovô era bode.

- vovô contava todo orgulho as historias de quando ele era pequeno no sertão.

- vovô noivou com duas mulheres ao mesmo tempo: vovó e outra. E pior, ele pediu dinheiro emprestado a vovó pra comprar a aliança da outra. Vovó botou a outra pra correr. Vovô morria de rir com essa historia.

- vovô era diabético, mas nao tava nem ai. ele comprava bolo lá pra casa, mas acaba comendo mais da metade, de uma vez só.

- vovô ia comprar pão na padaria e fazia uma refeição, praticamente, provando as novidades. vovó nem ia, porque morria de vergonha. vovô achava graça.

- quando meus avós iam almoçar lá em casa, vovô, como sempre, se esbaldava de tanto comer. vovó brigava dizendo que a glicose dele ia aumentar. "pára de me beliscar, Conceição." "olhe, ana (minha mae), ela tá me chutando aqui embaixo".

- vovô caminhava todo dia, com chuva, com sol, não importava.

- vovô não tava doente. seu coração simplesmente parou.

- vovô tinha ido no cardiologista meses antes. Ele disse que vovô estava com o coração de atleta.

- ele adorava quando vovó sentia ciúmes dele.

- vovô adorava o sabonete Senador. Ainda sinto o cheiro dele.

- vovô sempre se cortava quando fazia a barba. Eu ficava danada com ele.

- vovô sentia PAVOR ao encontrar qualquer fio de cabelo, por mais minusculo que fosse, perto do prato dele. ele nao comia mais, de jeito nenhum.

- vovô era viciado no jogo do bicho. ele parava o transito para olhar a tabela. Eu ouvia as buzinas furiosas dos carros atras e me abaixava no banco de trás.

- vovô era muito engraçado. E ator, também. Inventava cada uma...

- vovô ficava indignado com o preço das comidas no aeroporto.

- vovô ficou absurdamente feliz e orgulhoso quando eu passei no vestibular. ficou feliz, feliz mesmo.

- vovô era brigão quando queria. E muito teimoso também.

- as vezes, é verdade, ele implicava com vovó. eu nao falava na frente dela, mas depois eu ligava pra ele pra dizer.

- vovô queria comer 98x no dia.

- eu fui 4x pra Foz e São Paulo com eles. em uma das vezes, quando tio Fábio também foi conosco, vovô se recusou a pagar um prato de sopa de R$ 22,00. Tio Fábio pagou.

- nas viagens, pra onde ele ia levava uma bolsa nas costas... com comida. No aeroporto, esperando o avião para voltar, vovô abriu a bolsa e tirou uma banana. "Quer uma, Conceição?" vovó ficou danada e morrendo de vergonha.

- vovô cochilava assistindo televisão. E depois, se a gente perguntasse, ele inventava uma historia na maior cara de pau, só para nao admitir que estava dormindo.

- vovô aperriava muito vovó. Aperriava mesmo.

- vovô adorava passear no supermercado. Ia todo dia.

- vovô dirigia super mal. A gente dizia que ele ia ser multado por dirigir devagar demais. E, incrivelmente, vovô foi multado por passar no sinal vermelho. Foi a maior gozação do mundo na família. Depois disso, quando o sinal estava perto de fechar (mas ainda aberto, no verde), vovô parava e os carros atras buzinavam freneticamente.

- "vai vovô, corre pra pegar o sinal" - "não dá, minha filha, o sinal é muito alto." É, ele era engraçado.

- vovô conhecia minhas amigas, mas trocava o nome de todas, menos de Alene.

- não tinha como uma amiga minha entrar no carro de vovô pra nao rir. Larissa, que estuda comigo na universidade, ria de chorar com as coisas dele.

- uma vez, alene foi almoçar comigo lá na casa dele. ele encheu o prato dela de arroz. Muito MESMO.

- vovô tinha um carro só dele, mas as vezes, saia de onibus, só para apresentar a carteira de maior de 65 anos e nao pagar a passagem.

- vovô dizia que quando minha mãe e minha avó saiam, o chão do shopping tremia, com tanto consumismo junto.

- vovô detestava ir ao shopping. Mal ia. Ele era revoltado com o preço do estacionamento.

- quando, uma vez, vovô foi ao shopping, ele perguntou ao segurança: "Moço, aqui vende salsicha?"

- vovô era viciado em tentar consertar óculos.

- vovô diminuia o jato da água quando eu e vovó iamos tomar banho. ele dizia que a gente, em um banho, gastava água suficiente para tomar banho a semana inteira.

- vovô não perdia o jornal da noite de jeito nenhum.

- vovô não gostava de dirigir nem de sair de noite.

- vovô brigava quase toda semana com o gerente do bompreço porque no panfleto tinha um preço e quando passava no caixa, estava outro. Às vezes, era coisa de centavos, mas ele brigava mesmo assim. E o gerente ja conhecia ele pelo nome.

- o padeiro do bompreço chorou quando soube que vovô tinha morrido.

- vovô me deixava quase sempre na escola. Um ano, quando ele viajou, contratou um taxi pra me deixar/buscar todo dia. Minha mae considerou uma afronta, mas ele disse que ia ficar mais tranquilo porque sabia o quanto ela atrasava e nao queria que eu ficasse esperando muito. O nome do taxista é Seu Formiguinha. É um senhor já. Ele também chorou quando soube da morte de vovô.

- quando vovô achava errado alguma coisa que eu fazia, ele pedia pra vovó falar comigo. Só pra eu nao ficar chateada com ele. bobinho, meu Deus.

- em todo aniversario de vovó, ele lhe dava um botão de rosa. Nesse ultimo (em dezembro), eu que dei.

- vovó tá sofrendo muito. ela tenta esconder, mas todo mundo vê.

- vovó agora é nossa menina dos olhos.

- meus avós discutiam muito por besteira. Mas, apesar de tudo, vovô tinha muito cuidado nela.

- eu via e falava com vovô todo dia. Inexplicavelmente, no dia que ele morreu, não vi nem falei com ele. Isso me entristesse demais. Eu poderia tê-lo aproveitado por mais um dia.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Sua gaveta. Sua.

A gaveta de vovô ainda está com as coisas dele. Não as roupas, claro. Mas a gaveta com livros, cartas e afins. Hoje, não sei porquê, resolvi abrir. Achei uma carta da minha mãe pra ele, ela devia ter uns 10/12 anos e dizia o quanto o amava e que seria a pessoa mais feliz do mundo se ele parasse de beber. Nós vimos isso. Meu avô estava sem beber há uns 10 anos. E nós fomos, vô, as pessoas mais felizes do mundo por isso.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Aqui, bem perto.

"Só não me iludo
quando digo que em mim
você é eterno e completo
em mim você vive saudável
e as aparências
e as circunstâncias
tantas vezes tão constrangedoras
para você
para nós
elas não valem."

Trechos de um poema feito por Stella (blogdomeupai.blogspot.com)