segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Pra eu não correr o risco de esquecer um dia.

- eu era a neta mais velha e mais paparicada de vovô.

- vovô ficava super se achando quando eu o defendia das discussões com vovó. "Tá vendo, Conceição, minha neta dá razão a mim, a mim", ele dizia todo orgulhoso.

- ele me dava pastilha toda semana. Curiosamente, na semana anterior a sua morte, ele me deu um saco com umas quatro. Ainda tenho a ultima e não consigo abrir.

- vovô dormia cedo, mas assim que eu começei a dirigir, ele ficava acordado até tarde, para que eu ligasse quando chegasse da universidade.

- morei um tempo com vovó e vovô e muitos pensavam que eu era a filha mais nova deles.

- em um dos meus regimes doidos, peguei vovô conversando escondido com a secretaria lá de casa pedindo, pelo amor de Deus, para nao deixar eu sair sem comer. "Forçe, minha filha, forçe que ela acaba comendo".

- vovô adorava Roberto Carlos. Todo domingo de manhã a gente acordava com o som nas alturas. Ainda bem que o senhor foi pr'aquele show, vô.

- meus avós viajavam todo ano pra Foz do Iguaçu e São Paulo. Todo mundo ria, dizendo que eles deveriam ir para outros lugares, mas nao tinha jeito. No ano que vovô faleceu, eu fui com eles.

- vovó prefere Foz. Vovô preferia São Paulo.

- de todas as viagens, ele trazia alguma coisa pra mim, nem que fosse uma lapiseira.

- vovô me apresentava com maior orgulho pra todos os amigos deles. Dos amigos de infância ao vendedor de galinha.

- vovô sempre me acordava mais cedo do que deveria, eu reclamava disso. "tá bom, tá bom, daqui a 10 min lhe chamo de novo". Não dava 5min, ele vinha com um copo de suco de laranja me acordar.

- "Deus te abençoe, minha filha. Deus te abençoe" - ele dizia várias vezes por dia, como uma força e fé enorme.

- eu ia na missa com ele e vovó quase toda semana. as vezes, ele me buscava. Outras, eu ia de carro e encontrava eles lá. Na ultima semana de vovô, eu fui mas eles nao estavam lá.

- vovô tinha raiva dos parabens no final da missa. quando tinha algum aniversariante, a gente já se olhava e eu morria de rir.

- vovô sempre mandava a gente lavar as mãos. SEMPRE.

- vovô tinha parado de beber há uns 8 anos. Quando bebia, ele saia escondido e eu ia junto porque ele me subordava com bombom, jujuba e tudo o que eu pedisse.

- uma vez, de proposito, eu derrubei a cerveja de vovô. Ele ficou revoltado.

- vovô morria de rir com os netos menores. Especialmente, Bia, Vitoria e Pedrinho.

- a comida preferida de vovô era bode.

- vovô contava todo orgulho as historias de quando ele era pequeno no sertão.

- vovô noivou com duas mulheres ao mesmo tempo: vovó e outra. E pior, ele pediu dinheiro emprestado a vovó pra comprar a aliança da outra. Vovó botou a outra pra correr. Vovô morria de rir com essa historia.

- vovô era diabético, mas nao tava nem ai. ele comprava bolo lá pra casa, mas acaba comendo mais da metade, de uma vez só.

- vovô ia comprar pão na padaria e fazia uma refeição, praticamente, provando as novidades. vovó nem ia, porque morria de vergonha. vovô achava graça.

- quando meus avós iam almoçar lá em casa, vovô, como sempre, se esbaldava de tanto comer. vovó brigava dizendo que a glicose dele ia aumentar. "pára de me beliscar, Conceição." "olhe, ana (minha mae), ela tá me chutando aqui embaixo".

- vovô caminhava todo dia, com chuva, com sol, não importava.

- vovô não tava doente. seu coração simplesmente parou.

- vovô tinha ido no cardiologista meses antes. Ele disse que vovô estava com o coração de atleta.

- ele adorava quando vovó sentia ciúmes dele.

- vovô adorava o sabonete Senador. Ainda sinto o cheiro dele.

- vovô sempre se cortava quando fazia a barba. Eu ficava danada com ele.

- vovô sentia PAVOR ao encontrar qualquer fio de cabelo, por mais minusculo que fosse, perto do prato dele. ele nao comia mais, de jeito nenhum.

- vovô era viciado no jogo do bicho. ele parava o transito para olhar a tabela. Eu ouvia as buzinas furiosas dos carros atras e me abaixava no banco de trás.

- vovô era muito engraçado. E ator, também. Inventava cada uma...

- vovô ficava indignado com o preço das comidas no aeroporto.

- vovô ficou absurdamente feliz e orgulhoso quando eu passei no vestibular. ficou feliz, feliz mesmo.

- vovô era brigão quando queria. E muito teimoso também.

- as vezes, é verdade, ele implicava com vovó. eu nao falava na frente dela, mas depois eu ligava pra ele pra dizer.

- vovô queria comer 98x no dia.

- eu fui 4x pra Foz e São Paulo com eles. em uma das vezes, quando tio Fábio também foi conosco, vovô se recusou a pagar um prato de sopa de R$ 22,00. Tio Fábio pagou.

- nas viagens, pra onde ele ia levava uma bolsa nas costas... com comida. No aeroporto, esperando o avião para voltar, vovô abriu a bolsa e tirou uma banana. "Quer uma, Conceição?" vovó ficou danada e morrendo de vergonha.

- vovô cochilava assistindo televisão. E depois, se a gente perguntasse, ele inventava uma historia na maior cara de pau, só para nao admitir que estava dormindo.

- vovô aperriava muito vovó. Aperriava mesmo.

- vovô adorava passear no supermercado. Ia todo dia.

- vovô dirigia super mal. A gente dizia que ele ia ser multado por dirigir devagar demais. E, incrivelmente, vovô foi multado por passar no sinal vermelho. Foi a maior gozação do mundo na família. Depois disso, quando o sinal estava perto de fechar (mas ainda aberto, no verde), vovô parava e os carros atras buzinavam freneticamente.

- "vai vovô, corre pra pegar o sinal" - "não dá, minha filha, o sinal é muito alto." É, ele era engraçado.

- vovô conhecia minhas amigas, mas trocava o nome de todas, menos de Alene.

- não tinha como uma amiga minha entrar no carro de vovô pra nao rir. Larissa, que estuda comigo na universidade, ria de chorar com as coisas dele.

- uma vez, alene foi almoçar comigo lá na casa dele. ele encheu o prato dela de arroz. Muito MESMO.

- vovô tinha um carro só dele, mas as vezes, saia de onibus, só para apresentar a carteira de maior de 65 anos e nao pagar a passagem.

- vovô dizia que quando minha mãe e minha avó saiam, o chão do shopping tremia, com tanto consumismo junto.

- vovô detestava ir ao shopping. Mal ia. Ele era revoltado com o preço do estacionamento.

- quando, uma vez, vovô foi ao shopping, ele perguntou ao segurança: "Moço, aqui vende salsicha?"

- vovô era viciado em tentar consertar óculos.

- vovô diminuia o jato da água quando eu e vovó iamos tomar banho. ele dizia que a gente, em um banho, gastava água suficiente para tomar banho a semana inteira.

- vovô não perdia o jornal da noite de jeito nenhum.

- vovô não gostava de dirigir nem de sair de noite.

- vovô brigava quase toda semana com o gerente do bompreço porque no panfleto tinha um preço e quando passava no caixa, estava outro. Às vezes, era coisa de centavos, mas ele brigava mesmo assim. E o gerente ja conhecia ele pelo nome.

- o padeiro do bompreço chorou quando soube que vovô tinha morrido.

- vovô me deixava quase sempre na escola. Um ano, quando ele viajou, contratou um taxi pra me deixar/buscar todo dia. Minha mae considerou uma afronta, mas ele disse que ia ficar mais tranquilo porque sabia o quanto ela atrasava e nao queria que eu ficasse esperando muito. O nome do taxista é Seu Formiguinha. É um senhor já. Ele também chorou quando soube da morte de vovô.

- quando vovô achava errado alguma coisa que eu fazia, ele pedia pra vovó falar comigo. Só pra eu nao ficar chateada com ele. bobinho, meu Deus.

- em todo aniversario de vovó, ele lhe dava um botão de rosa. Nesse ultimo (em dezembro), eu que dei.

- vovó tá sofrendo muito. ela tenta esconder, mas todo mundo vê.

- vovó agora é nossa menina dos olhos.

- meus avós discutiam muito por besteira. Mas, apesar de tudo, vovô tinha muito cuidado nela.

- eu via e falava com vovô todo dia. Inexplicavelmente, no dia que ele morreu, não vi nem falei com ele. Isso me entristesse demais. Eu poderia tê-lo aproveitado por mais um dia.

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